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segunda-feira, 2 de maio de 2011

Sobre as fantasias

As coisas que acabei de descrever, senhores, compelem-me a examinar mais de perto a origem e a significação da atividade mental que se classifica como ‘fantasia’ [ou ‘imaginação’]. Conforme os senhores sabem, ela desfruta de uma reputação universalmente elevada, sem que sua posição na vida mental tenha sido esclarecida. A seu respeito tenho observações a fazer. O ego humano, como sabem, é, pela pressão da necessidade externa, educado lentamente no sentido de avaliar a realidade e de obedecer ao princípio de realidade; no decorrer desse processo, é obrigado a renunciar, temporária ou permanentemente, a uma variedade de objetos e de fins aos quais está voltada sua busca de prazer, e não apenas de prazer sexual. Os homens, contudo, sempre acharam difícil renunciar ao prazer; não podem deixar-se levar a fazê-lo sem alguma forma de compensação. Por isso, retiveram uma atividade mental na qual todas aquelas fontes de prazer e aqueles métodos de conseguir prazer, que haviam sido abandonados, têm assegurada sua sobrevivência — uma forma de existência na qual se livram das exigências da realidade e aquilo que chamamos ‘teste de realidade’. Todo desejo tende, dentro de pouco tempo, a afigurar-se em sua própria realização; não há dúvida de que ficar devaneando sobre imaginárias realizações de desejos traz satisfação, embora não interfira com o conhecimento de que se trata de algo não-real. Desse modo, na atividade da fantasia, os seres humanos continuam a gozar da sensação de serem livres da compulsão externa, à qual há muito tempo renunciaram, na realidade. Idearam uma forma de alternar entre permanecer um animal que busca o prazer, e ser, igualmente, uma criatura dotada de razão. Na verdade, os homens não podem subsistir com a escassa satisfação que podem obter da realidade. ‘Simplesmente não podemos passar sem construções auxiliares’, conforme disse, certa vez, Theodor Fontane. A criação do reino mental da fantasia encontra um paralelo perfeito no estabelecimento das ‘reservas’ ou ‘reservas naturais’, em locais onde os requisitos apresentados pela agricultura, pelas comunicações e pela indústria ameaçam acarretar modificações do aspecto original da terra que em breve o tornarão irreconhecível. Uma reserva natural preserva seu estado original que, em todos os demais lugares, para desgosto nosso, foi sacrificado à necessidade. Nesses locais reservados, tudo, inclusive o que é inútil e até mesmo nocivo, pode crescer e proliferar como lhe apraz. O reino mental da fantasia é exatamente uma reserva desse tipo, apartada do princípio de realidade. As mais conhecidas produções da fantasia são os chamados ‘devaneios’, que já examinamos [ver em [1]], satisfações imaginárias de desejos ambiciosos, megalomaníacos, eróticos, que florescem com tanta mais exuberância, quanto mais a realidade aconselha modéstia e contenção. A essência da felicidade da fantasia — tornar a obtenção de prazer, mais uma vez, livre da aprovação da realidade — mostra-se inequivocamente nesses desejos.
Freud, S. Conferências de introdução à psicanálise. Conferência XXIII. 1916

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