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sexta-feira, 6 de maio de 2011

As vezes, se chega ao mesmo lugar por caminhos diferentes


“The fact that punishment does not permanently reduce a tendency to respond is in agreement with Freud's discovery of the surviving activity of what he called repressed wishes. As we shall see later, Freud's observations can be brought into line with the present analysis.”[i]
(O fato de que a punição não reduz permanentemente a tendência a responder está de acordo com a descoberta Freudiana da atividade remanescente do que ele chamou desejos reprimidos. Como veremos depois, as observações de Freud podem se adequar com a presente análise)


[i] Skinner, B.F. Science and Human Behavior. 1953

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Sobre as fantasias

As coisas que acabei de descrever, senhores, compelem-me a examinar mais de perto a origem e a significação da atividade mental que se classifica como ‘fantasia’ [ou ‘imaginação’]. Conforme os senhores sabem, ela desfruta de uma reputação universalmente elevada, sem que sua posição na vida mental tenha sido esclarecida. A seu respeito tenho observações a fazer. O ego humano, como sabem, é, pela pressão da necessidade externa, educado lentamente no sentido de avaliar a realidade e de obedecer ao princípio de realidade; no decorrer desse processo, é obrigado a renunciar, temporária ou permanentemente, a uma variedade de objetos e de fins aos quais está voltada sua busca de prazer, e não apenas de prazer sexual. Os homens, contudo, sempre acharam difícil renunciar ao prazer; não podem deixar-se levar a fazê-lo sem alguma forma de compensação. Por isso, retiveram uma atividade mental na qual todas aquelas fontes de prazer e aqueles métodos de conseguir prazer, que haviam sido abandonados, têm assegurada sua sobrevivência — uma forma de existência na qual se livram das exigências da realidade e aquilo que chamamos ‘teste de realidade’. Todo desejo tende, dentro de pouco tempo, a afigurar-se em sua própria realização; não há dúvida de que ficar devaneando sobre imaginárias realizações de desejos traz satisfação, embora não interfira com o conhecimento de que se trata de algo não-real. Desse modo, na atividade da fantasia, os seres humanos continuam a gozar da sensação de serem livres da compulsão externa, à qual há muito tempo renunciaram, na realidade. Idearam uma forma de alternar entre permanecer um animal que busca o prazer, e ser, igualmente, uma criatura dotada de razão. Na verdade, os homens não podem subsistir com a escassa satisfação que podem obter da realidade. ‘Simplesmente não podemos passar sem construções auxiliares’, conforme disse, certa vez, Theodor Fontane. A criação do reino mental da fantasia encontra um paralelo perfeito no estabelecimento das ‘reservas’ ou ‘reservas naturais’, em locais onde os requisitos apresentados pela agricultura, pelas comunicações e pela indústria ameaçam acarretar modificações do aspecto original da terra que em breve o tornarão irreconhecível. Uma reserva natural preserva seu estado original que, em todos os demais lugares, para desgosto nosso, foi sacrificado à necessidade. Nesses locais reservados, tudo, inclusive o que é inútil e até mesmo nocivo, pode crescer e proliferar como lhe apraz. O reino mental da fantasia é exatamente uma reserva desse tipo, apartada do princípio de realidade. As mais conhecidas produções da fantasia são os chamados ‘devaneios’, que já examinamos [ver em [1]], satisfações imaginárias de desejos ambiciosos, megalomaníacos, eróticos, que florescem com tanta mais exuberância, quanto mais a realidade aconselha modéstia e contenção. A essência da felicidade da fantasia — tornar a obtenção de prazer, mais uma vez, livre da aprovação da realidade — mostra-se inequivocamente nesses desejos.
Freud, S. Conferências de introdução à psicanálise. Conferência XXIII. 1916

domingo, 1 de maio de 2011

Michel Foucault: Filosofía y Psicología (1965) (Legendas em espanhol)


                                                                                  Indicado por Ana Alice Brites

O MONISMO DE ASPECTO DUAL. Uma perspectiva instigante sobre o problema mente-corpo.

O problema de qual seria relação entre a mente e o corpo tem ocupado um lugar proeminente na história do pensamento filosófico e científico. Tanto é assim que uma miríade de soluções foi proposta. Porém, a maioria delas pode se enquadrar nos eixos monismo/dualismo e idealismo/materialismo. Uma posição monista é aquela que reconhece a existência de um tipo de substância só, enquanto a dualista postula a existência de duas, uma material e outra “espiritual”. A postura idealista, representada por Platão, por exemplo, propõe que só gozariam de existência real as “idéias” e não o mundo sensível, mera cópia imperfeita delas. A postura materialista já tem a visão oposta: só o mundo sensível deve ser considerado como existente. Outros posicionamentos são difíceis de encaixar nessas categorias, como o caso da filosofia escolástica, que considera o homem como uma substância só; mas constituída a partir de dois coprincipios de diferente natureza: a matéria e a forma. No entanto, devido às suas características (seu fundamento na observação, por exemplo) a ciência tem se decantado, em geral, por uma posição abertamente monista e materialista.
Na tentativa de harmonizar posições netamente científicas com a constatação da existência de experiências subjetivas, tem surgido explicações de tipo emergentista. Esse tipo de argumentação se baseia na idéia de que propriedades novas podem “emergir” em organismos com um maior nível de complexidade. Da mesma forma que a água tem propriedades que não se encontram no oxigênio e no hidrogênio por separado, o cérebro humano seria capaz de produzir capacidades ou funções que não se encontram em cérebros de animais com níveis inferiores de complexidade. Porém, a hipótese emergentista não explica satisfatoriamente como isso aconteceria. Precisamente o “como” se dá esta interelação entre o físico e o mental é o que Chalmers chamou o problema “difícil”. O problema “fácil” –a correspondência entre processos físicos no cérebro e processos subjetivos- está sendo resolvido de forma lenta, mas adequada, pela neurociência atual.
Mark Solms e Oliver Turnbull, destacados neuropsicanalistas, propõem uma nova perspectiva sobre o assunto que daria conta de explicar tanto o problema fácil como o problema difícil: o Monismo de aspecto dual. Nesta perspectiva, existiria só um tipo de substância, que pode ser percebida sob dois aspectos: como matéria/ cérebro (quando olhamos o cérebro enquanto estrutura anatômica) e como experiência subjetiva (através da introspecção). Porém, como só podemos ver essa substância subjacente ora através de um desses prismas, ora através do outro, nunca poderemos ter certeza de como ela é em si. Desta forma, ficaria resolvido o problema da interação entre mente e corpo; pois não existiriam, em verdade, duas substâncias de diferente natureza; mas uma substância só, percebida de duas formas diferentes. O problema da relação mente/corpo deixaria de ter, então caráter ontológico, e passaria a ser um problema apenas de percepção, embora irresolúvel.
Jaume Aran

Freud: História de vida (parte II)


Retomando, quando foi para Paris Freud entrou em contato com Jean-Martin Charcot, professor renomado na época. Charcot conduzia experimentos com histéricos na Salpêtrière, doença que até então era pouco compreendida. As experiências de Charcot acabam por exercer uma grande influência em Freud, e este tem os primeiros impulsos para desenvolver a psicanálise.
A histeria se caracteriza por uma série de sintomas, identificados desde a Antiguidade e sem uma causa orgânica aparente, como ataques convulsivos, anestesias, perturbações da atividade sensorial, paralisações, contrações musculares, etc. No fim do século XIX, os casos aumentaram consideravelmente e a medicina nada podia fazer, pois, como não se identificava uma causa orgânica, não podiam tratá-la. Por esse motivo havia um desinteresse, por parte dos médicos, pelos casos histéricos e a sua etiologia era tida como enigmática.
Em Salpêtrière, Charcot ficava no setor onde abrigavam os epilépticos e os histéricos, o setor chamava-se “setor dos epilépticos simples”. Na época a epilepsia simples era considerada por desvios funcionais, sem lesões no cérebro, e tinha como principal sintoma as crises convulsivas. As epilepsias simples e as histerias eram englobadas no gênero “neurose”, apesar de se assemelharem havia características que as individualizam. Charcot foi o primeiro que delimitou com sucesso as características distintivas da histeria. Na sua estadia em Paris, Freud se convenceu que as histerias eram uma patologia que deveriam ser estudadas seriamente, ele acreditava que as manifestações histéricas eram autenticas e obedeciam a certas leis. Foi em Paris também, que Freud entrou em contato com um novo método de intervenção terapêutica, denominado “sugestão hipnótica”.

(Continua)

Fonte: SIMANKE, Richard Theisen; CAROPRESO, Fátima. Temas de introdução à psicanálise freudiana. São Carlos: Edufscar, 2006.


                                                                                           Angelo Luiz Sorgatto